| Copacabana Black and White | |
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A gente podia tomar uns chopps e ir dançar. Você já foi na Help?. Não, responde ele; Quer dizer... não pra dançar. A Discoteca Help já foi famosa por sua festa de réveillon de frente para a praia de Copacabana, com toda aquela queima de fogos em plena areia. Hoje pouco restou daqueles anos 90; a boate parece fora do lugar com aquela fachada aquadradada e meio descascando, não lembrando em nada as modernas casas noturnas que se espalham em outras orlas da mesma Zona Sul. Ninguém parece se importar. As noites na Help hoje são tanto quanto ao mais quentes do que naquele tempo. Saem as mocinhas aparentemente comportadas e entram os estrangeiros escoltados por mulheres que gravitam ao redor dos dólares que voam das carteiras. Pasteurizados no meio deles, os chamados corajosos, aqueles que pagam para assistir ao espetáculo. A despeito do objetivo, todos dançam, há delírios, sexo, drogas e muito suor diluído enquanto a Avenida Atlântica segue até amanhecer. Para os quadrinistas Odyr o Lobo, nada mais é que um jogo de sombras e sombras: Copacabana é sempre como a pista da Discoteca Help, o sol só atrapalha um pouco de ver. O álbum, publicado pela Desiderata, começou a se concebido quando o declínio do legendário nightclub já gozava de muitas saúdes; dez anos atrás, Sandro Lobo chegava ao Rio de Janeiro vindo do Rio Grande do Sul e acabara se instalando no bairro das calçadas de ondas e passando ali algumas noites insones se alimentando das pessoas dali, das suas histórias, dos seus bons e maus modos. Os personagens iam aparecendo e as histórias se confundindo umas nas outras, os personagens iam se formando e as histórias inventadas a partir umas das outras. Depois de dois anos, das anotações e fictiones saiu o roteiro de Copacabana.
Os desenhos passaram por diversas mãos ao longo de sete anos até irem parar nas mãos de Odyr Bernardi, também de regresso do Rio Grande do Sul, que largou o bucólico bairro de Santa Teresa para ir ter com as agruras de Copacabana. Com Lobo a tira-colo, teve seus primeiros contatos com as ruas, arquiteturas, viaturas e chopps ladeados por aqueles canteirinhos verdes. Fotografou tudo até começar a dar luz a alma do álbum, àquela espécie de SinCity tropical. Conheci os dois artistas num dia de azar e extrema sorte em que fui barrada na abertura da exposição de quadrinhos no Centro Cultural dos Correios, no Centro da cidade. Eles eu não sei se também tinham sido recusados ou se simplesmente estavam, como o Jaguar, mais a vontade com a brisa do que com o concorrido coquetel que rolava lá em cima. Orgulhosamente, no fim da noite, recolhi os desenhos de mim que Odyr tinha feito nuns guardanapos, os que não tinham ainda se afogado com a cerveja da mesa, e eles se despediram convidando para a esticada... na Help. Agradeci, recusei e fiquei coçando pela falta de coragem.
Era por lá que a preta Diana deles circula, ou melhor, trabalha. Um ambiente nitidamente borrocado com meninas no queijo, meninas nas cabines de strip, meninas na calçada com a bunda em meia-lua do lado de fora, bonecas para todo canto; as travestis estão reinando e precisam se alimentar, e precisam comprar o pó da noite. Nesse ínterim, bares, poodles com seus velhinhos na janela, cantadas baratas, cantadas caras e estupros, levam a protagonista, de cliente em cliente, para uma trama onde alguns golpes podem dar muito errado e quem é que vai ter de esconder os corpos? A despeito de tudo ela continua. É por esse caos que Diana transita feito essas pessoas com luz própria; ela não precisa de cartões postais, sozinha consegue colorir as ruas e vidas monocromáticas entre um programa e outro do Sílvio Santos. Copacabana é uma história sensível exposta a todo tipo de selvajaria sexo, tiros e drogas trás um B side de um bairro invadido por contrastes, deslocado entre a beleza gloriosa e a fome de tudo.
Fonte: feedproxy.google.com
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